terça-feira, 10 de agosto de 2010

Reminiscências

Reminiscências

Não era de hoje que aqueles objetos estagnados no tempo e confinados naquelas prateleiras a incomodavam. Prataria, porcelana, cristais e recordações dividiam espaço com outros sem valor algum e com a poeira que se instalou durante essa década.

Dez anos se passaram desde que aquela senhora de olhos azuis e pele fininha, cheirando à violetas, deixou de servir seus bolos de nozes e ameixas nos pratos de limoge, (ainda que o cheiro do doce o tivesse impregnado), de abrir o baú que esconde o velho faqueiro de prata; de guardar as notas do supermercado e os cartões de boas festas das primas do rio nas caixinhas e réchaud de porcelana. Dez anos...

É intrigante tentar descobrir o que fizera aquela curiosidade de menina em mexer nos bibelôs da vovó, adormecer por tanto tempo. Luto, talvez. Respeito. Quem sabe a adolescência que despertara novos interesses.Não se sabe.

Contudo, foi naquela tarde fria do mês de julho que, empolgada com a restauração total da velha casa, ela decidira finalmente abrir a cristaleira. Instaurou-se então o ritual, mexer naquelas coisas antigas e remexer em outras já esquecidas era algo que ultrapassava as paredes das simples ações quotidianas. Energia pura que seria renovada, ou não. Mas sem dúvida algo singular.

Portas abertas. O cheiro do mofo e dos bolos de nozes com ameixas imediatamente sopraram-lhe a face. Lembranças, cheiros, sons e sensações emergiram. Um turbilhão de memórias nem sempre tangíveis, racionais, muitas vezes nebulosas, enigmáticas, e fragmentadas.

Ela aguardara tanto aquele instante que o saboreou cuidadosamente. Cada pedaço, cada contorno dourado, cada textura, cada som de cristal a tilintar. Tudo. A organização foi feita por partes, permeada de delicadeza e de apreço. Mas chegara o momento de encaminhar cada item que a garota julgou inapropriado permanecer na estimada cristaleira. O que fazer com tantas quinquilharias, intrigou-se. Miudezas sem qualquer valor sentimental ou financeiro, mas que, por algum motivo, recusou-se a jogar no lixo. Ela queria ofertar um olhar mais zeloso. Foi então que aquela caixinha azul atiçou-lhe. A princípio lembrou-se das caixas de gravatas ou de lenços, daqueles que o tio ganhava todos os anos no natal. Em um olhar mais perspicaz revelaram-se letras: "ESTAMPAS DE LUTO". Emocionada, já imaginara o que encontraria ao abrir a caixinha.

A avó, a Tia e uma senhora desconhecida. Todas homenageadas com carinho. As lembranças continuavam indo e vindo, truncadas, porém vivas. Ainda assim, nada que fizera-lhe derramar lágrimas ou deixar-se abater. Nada, exceto as palavras escritas pelo tio irreverente àquele que partira.

"-Eu brincava com o "soldadinho da Toddy com você.

-Eu abria pacotinhos de figurinhas comprados na quitandinha com você.

-Eu estava do teu lado quando teu Pai partiu.

-Eu vi tua mãe e tua Irmã partirem.

-Eu vi você ir.

-Aquele mortadela "gelada e arisco que todos conhecem:

Eu desconheço

Eu conheço a ti, vá com Deus!!!

Gugu

Mas eu não, murmurou para si mesma. Não teria expressão melhor para aquele momento. Um calor invadiu-lhe a face, os olhos marejaram no mesmo instante, a garganta e o peito unidos em um único nó. Tanto o tempo como o corpo estagnaram-se. Não havia o que fazer. O abraço que deixara de apertar, a palavra engolida, o carinho contido, a relação que não estreitara e todas as necessidades nascidas naquele momento imediatamente revelaram-se inacessíveis. Não havia o que fazer.

Arisco, julgou a menina ser o adjetivo que melhor definia aquele tio Mortadela, apelido carinhosamente recebido dos amigos. Era Boêmio, do mato, gostava de pedras, apesar do coração frouxo que, em vão, pretendia disfarçar. Era bonito, em todos os aspectos. Beleza esta que uma vida de desilusões pouco a pouco consumiu. E ele nada fez para que a dispersão das suas angústias cessasse. Preferiu refugiar-se dentro de si, junto aos amigos, e aos prazeres efêmeros.

A menina assistiu a tudo. Nada pode para despertar-lhe alegrias ou motivações. Mesmo desejando agir a timidez a conteve sempre. Não havia caminhos abertos a ela. Agora lhe restava apenas lembranças inventadas, momentos imaginados, vínculos sonhados e a certeza de que seriam inesquecíveis. Demonstrações de afeto, que poderiam ter enchido aquele frágil coração de calor fraternal. Poderiam...

Restou-lhe somente o frágil futuro do pretérito. A saudade foi então guardada, junto à prataria, à porcelana, aos cristais e às recordações contidas na cristaleira.

Um comentário:

Ademar Oliveira de Lima disse...

Estive em visita ao seu blog para conhecer o seu trabalho!!
Abraços